segunda-feira, 30 de abril de 2012

Aquele gosto de despedidas


Entre goiabas e doses de uísque
eu posso suportar mais uma noite nessa placa de merda
que alguns chamam de cidade
sabemos que amanhã
estaremos um pouco mais mortos
um pouco mais confusos
e com algumas gotas a menos de moralidade
acho que não é necessário um compasso
para desenhar aquelas tetas
aquela mancha;
mas uma caneta seria bem vinda para assinar
o atestado de partida.



.~,

quinta-feira, 29 de março de 2012

Síndrome de Florença




Tanta tensão entre meus polegares
E aqueles lenços epidérmicos
Tanta loucura rastejando em busca de ventosas e orifícios
Um dedo que toca um braço; um hálito que sopra um tormento.

O novo decreto será:
Doses de coerência grátis no boteco da esquina
E a libertação dos golfinhos acrobatas.
Um chute no baço da covardia
Um vórtice azul e cheio de areia se arregaçando
Como a vulva de uma gestante terminal.

Me retesando nas máscaras de Giacometti virei a noite
A passos descuidados corrompendo minha memória
Com frutas que mancharam minhas roupas.
Ambivalência e estranhas circunstâncias, esquecer é tão belo
Como o sorriso senil do quadro
de um poeta em crise
com síndrome de Florença.


.I.

quinta-feira, 22 de março de 2012

um poema

O blues do perdedor sacode em minha garganta
Muita espuma e pouca virtude
O telefone tocando
Uma égua dizendo alô
Posso apagar agora ou em dez segundos
O disquete é cult
Tua foto é cult
Thurston Moore é cult
Teu cú enrugado é cult
Machas em minhas mãos
Aquela gordinha sexy branquela rebolando em meu carpete
Onde se pode ler cartas
Onde se pode lamber feridas
Onde se pode homenagear três deuses de uma só vez
Quinta feira do cacete
Horas e minutos em honras de cetim
Ah! Eu te amo
Desculpe, não avisei, mas isso era um poema de amor.

sábado, 3 de março de 2012

A triologia das vontades


Os seres humanos, aqueles que na minha opinião deveriam ser encoleirados pelos cães e chicoteados por cavalos, são seres frágeis e vulneráveis, escravos de ímpetos ancestrais e hediondos. E para homenagear estas bestas de polegares opositores e egos exaltados escrevi três poemas denominados:
 A triologia das vontades.

A ereção.

A fome.

O sono.




Ereção

Algumas poucas fossas
Para bebericar no verão do norte
Por todos os povos e neuroses
Vamos afundando nossas bundas e
Praticando velhos ofícios de segmentos territoriais

Assisti uma peça interminável sem atores

Um oceano doce de algas deslocadas

Me encaixei na árvore de natal
E me senti a mais vermelha das bolas
Falando em bolas
Não posso te abraçar agora.



Fome

A distensão dos músculos
Pode ser comparada a um enigma
Antropológico indecifrável
Venerei a carne por cinco séculos
Cinco séculos fermentando em uma lixeira

Os sacerdotes me advertiram
Dos perigos de um copo vazio
Debruçando minhas pálpebras
Sobre suas fotos eu pensei encontrar
A perfeição do universo

Queimem os livros
Matem os fotógrafos
Façamos um filme com um final sinistro
Um final tão distante do real
Quanto possa alcançar seu apetite.



Sono

Goya tentando decifrar
Os enigmas da razão
Ele devia estar com muito ópio na cabeça
Ou o saturnismo já molestava seu crânio

O livro das ovelhas não me trouxe o sono
Minhas mentiras eram curtas
E minhas pálpebras,
As futuras portadoras do sonho,
Já se entediavam com as cores

E era da garrafa dos sonhos que
Eu precisava tomar um longo porre.
Para ler baixinho os poemas de Pierre
E mandar ao cú do cavalo
Toda a linearidade.



.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um pouco a cada dia

De que vale o enorme seio que me alimenta
Preciso de um pouco mais do que leite para a satisfação de minha figura
Morda sua bunda cadela incipiente
As fadas sorridentes me confrontam com seus gracejos banais
A melancia sem açúcar sacode em minha boca
De bochecha a bochecha ela se convulsiona num tormento amoral
Pedras de mim; da rua e do rim de seu pai
Entre a esquina que nunca caminhamos
E o beijo que nunca te dei
Posso demarcar meu território
Urinando em todos os postes até sua casa.
Quando o ultimo uivo morrer entre meus dentes
E a ultima ervilha ser dissolvida pelas minhas enzimas
Podemos comemorar nosso natal
O nascimento do bode deformado
Minha barba fede a sedução de um ritual animalesco
Sua mão no meu pinto
Pouco importa o peso entre seus ombros
Aquela crosta rancorosa varre meus orifícios
Me tornei aliado do vento, irmão da chuva, primo da adversidade
Não poderemos nos tornar amigos
A menos que permita que eu te mate
Um pouco a cada dia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Pão de queijo

.,.,.,





Em cada calçada que eu deixo cair meu rosto
Eu lembro de um buraco na erva verde que cintila
Ao som dos poucos raios do sol
O mais brega dos pesadelos me persegue
Como um coelho gigante vestido de vermelho
Não podemos fechar a porta para uma doença que corrói o corpo
Somos todos defuntos amigos dos átomos e das flores
Meu grande remédio morreu com meu orgulho
Meu orgulho afunda com estas palavras
Estas palavras me saciam e me aliviam
Como a cerveja em lata
Como as escórias que marcham na praça publica
Fardadas ,uniformizadas e com aquele cheiro de humanidade...





;.;.;.

domingo, 1 de janeiro de 2012

dia mundial dos motivos

e é no ultimo dia
que percebemos o que realmente vale a pena

o telefone chora
e uma garrafa de gim
me convida para celebrar nossas mazelas

reviro minha gaveta de lembranças
e entre uma calcinha azeda
e um a pulseira sem elástico
encontro uma caixa desbotada
e ali dentro da caixa me escondo

o escuro tem um cheiro engraçado
um cheiro de silêncio
um silêncio que não vivi



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