segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

a terrível sina do copo mutante

A solidão invadiu minha boca e minhas narinas
me entorpecendo com um pedaço de escuridao cerrada
frente aos meus olhos e meus tormentos
era só mais uma galinha tentando voar
um antigo quadro de poetas e sacerdotes
uma anomalia congênita e absolvida
tintas nao matam mais a sede
a batida, a voz, o vento
vamos congelar de quietude
eu sou o analista de mim
mandarei a conta depois
vou sobreviver
é só um domingo morto que pragueja ao sol
um domingo preso em uma fralda geriátrica
um eremita caquético e desdentado
pensei realmente estar doente
mas eu só estava vivo
 
 
~;...

sábado, 14 de janeiro de 2012

Um pouco a cada dia

De que vale o enorme seio que me alimenta
Preciso de um pouco mais do que leite para a satisfação de minha figura
Morda sua bunda cadela incipiente
As fadas sorridentes me confrontam com seus gracejos banais
A melancia sem açúcar sacode em minha boca
De bochecha a bochecha ela se convulsiona num tormento amoral
Pedras de mim; da rua e do rim de seu pai
Entre a esquina que nunca caminhamos
E o beijo que nunca te dei
Posso demarcar meu território
Urinando em todos os postes até sua casa.
Quando o ultimo uivo morrer entre meus dentes
E a ultima ervilha ser dissolvida pelas minhas enzimas
Podemos comemorar nosso natal
O nascimento do bode deformado
Minha barba fede a sedução de um ritual animalesco
Sua mão no meu pinto
Pouco importa o peso entre seus ombros
Aquela crosta rancorosa varre meus orifícios
Me tornei aliado do vento, irmão da chuva, primo da adversidade
Não poderemos nos tornar amigos
A menos que permita que eu te mate
Um pouco a cada dia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Pão de queijo

.,.,.,





Em cada calçada que eu deixo cair meu rosto
Eu lembro de um buraco na erva verde que cintila
Ao som dos poucos raios do sol
O mais brega dos pesadelos me persegue
Como um coelho gigante vestido de vermelho
Não podemos fechar a porta para uma doença que corrói o corpo
Somos todos defuntos amigos dos átomos e das flores
Meu grande remédio morreu com meu orgulho
Meu orgulho afunda com estas palavras
Estas palavras me saciam e me aliviam
Como a cerveja em lata
Como as escórias que marcham na praça publica
Fardadas ,uniformizadas e com aquele cheiro de humanidade...





;.;.;.

domingo, 1 de janeiro de 2012

dia mundial dos motivos

e é no ultimo dia
que percebemos o que realmente vale a pena

o telefone chora
e uma garrafa de gim
me convida para celebrar nossas mazelas

reviro minha gaveta de lembranças
e entre uma calcinha azeda
e um a pulseira sem elástico
encontro uma caixa desbotada
e ali dentro da caixa me escondo

o escuro tem um cheiro engraçado
um cheiro de silêncio
um silêncio que não vivi



-... ... -

domingo, 18 de dezembro de 2011

O trompete verde da pequena Kim

A pequena Kim picava cogumelos em cubos na sua tábua de carne. A duzentos e setenta quilômetros dali um garoto magrelo imitava uma hiena em um ônibus ao lado de seu amigo que se babava de tanto rir.
Não tardaria para que a psilocibina prestasse suas magias. Sempre há um pé de alfafa para absorver as nossas mijadas.
Os ponteiros do tempo pareciam presos por grilhões e a pequena Kim brincava distraída com seu clitóris quando percebeu uma leve formigação em sua mão esquerda.
Os destroços do navio boiavam preguiçosos, fritando ovos sobre suas superfícies metálicas. Meus braços já quase se despencando do tronco sorriram histericamente quando as pontas de meus pés tocaram nos primeiros grãos de areia. Cai pesado entre conchas, espumas e tatuiras carameladas.
O vórtice havia voltado, como se já não me bastasse o convite de um amigável chá ele precisava sugar o meu medo. Com um esforço abrasivo eu reprimi meus fluxos neurais o quanto pude.
Meus bigodes ralos se empaparam com o sangue abundante que escorria pelas fendas de meu nariz.
A pequena Kim começava a sentir seus lábios tocarem suas orelhas. Sua risada se tornou o som de um trompete azul; ela sabia que um trompete azul tinha o som diferente de um verde.
Mas para todos os efeitos ainda era terça feira.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

7:41



A linha foi criada para suprir
A ausência da essência
Por trás de cada morro escondem-se
Sombras sem nome e sem passado
Parece tolo sentir saudade do impossível
Mas no fundo vermelho e silencioso das memórias
O impossível é a única coisa
Que vale a pena ser lembrada

                                                               





                                                                              ...............

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

o livro dos estranhos indiscretos

esfirras apimentadas
ela me leu poemas sobre as sobras da mesa
e discutimos sobre o vazio que dói
mordi a língua e beijei sua cicatriz
lembrei de uma música idiota e dei risada
revelei a construção de meu personagem
o enlevo de meu prazer
surtamos os dois e planejamos nos devorar
bem devagar
como um carrossel empoeirado
com pequenos pôneis sem rabos
aleluia irmão
todos abrem os olhos e dão as mãos


Para a garota que lê Fernando Pessoa para mim depois do almoço...

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