quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Peixes não rezam antes de comer



Porque todas as vezes que baterem à sua porta
Alguém dirá miau
São gatos frágeis e com algumas substâncias ininteligíveis
Podemos dizer olá, talvez ou muito obrigado.
São todos derrotados de porcelana clamando por um carinho em suas nucas
Se eu fosse metade do que já fui, poderia me considerar alguém de sorte ou no mínimo de gênio.
As lontras apavoradas por calor me ofereceram abrigo em suas tocas empoeiradas
Não sei escrever; nem mesmo ver o mundo
Amando lâmpadas e alabastros espremidos.
Maçãs
Todas as maçãs nasceram com o dom de pedir clemência
Me ame matusquela seca
Sua vagina com fios de ovos são no mínimo comoventes
Um teto coberto de fuligem
Discussões, bife a milanesa, sorvete brulée
A investigação.
Ela surge do pressuposto de que se pode amamentar a verdade.
Crias forjadas na mentira de palavras incandescentes e escabrosas
Em nossa fábrica de punhetas
Eu gozo por você todas as noites
E todas as manhãs.



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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Amarcord




E só agora, na ressonância descompassada e cacofônica de sua respiração em meu ouvido é que pude entender um pedaço de minha memória, um pedaço perdido como uma torta infestada por fungos, dormindo silenciosa no fundo da geladeira. Uma fatia de mim que foi sepultada e sufocada entre imagens que antes pareciam muito mais vivas. 
Só agora, sentindo suas coxas geladas e suas mãos me envolvendo num abraço inconsciente de carência sufocante, eu pude lembrar, com clareza límpida a estranha carga imagética dos meus um tanto longilíneos dezesseis anos. Quando todas as manhãs eu era despertado pela cadela branca da família, que aprendera a abrir a porta e se aninhava em meus pés a beira da cama; num quarto excessivamente retangular, mal iluminado, fedendo a ressaca e a livros velhos de biblioteca.
 Uma afta explode em minha boca, misturando o pus aos tormentos de minha gengivite matinal, quase posso sentir a aspereza de sua pequena língua rosa lambendo meus tornozelos; quase posso ouvir os insultos abrasadores de meu pai, rompendo com força o véu dos sonhos que me acolhiam naqueles fantasiosos dias. 


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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Feliz natal



 Pensamentos espanhóis
Natais em família são os lamentos de um estômago abarrotado
Uma rara falta de nicotina se manifesta
Perdão pelos meus pecados
Me excluo e como carnes raras, regurgito a simpatia de meu sangue
Me excluo em um pequeno mundo de templos de pedras
Onde os que quebram as barreiras são os grandes beneficiados
Pela morte
Pelo tempo
Pêlos em meu cú
Um corpete suspenso espera pela bailarina entorpecida
Minha família fede
A sedução me encanta
Novamente sonho com a Espanha
Não são os touros ou as capas vermelhas
Sussurros de una tica
São as descobertas de uma terra desabitada pelo meu próprio conhecimento
Penso em sua boca
E em seus olhos inchados por álcool e pelo seu tormento de me conhecer.




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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O herdeiro



A betoneira grita num tom lamentoso as notas da banalidade
Pedras empilhadas esperavam para compor o corpo entediado de uma construção fálica
O sentido óbvio dos objetos foi criado com o único propósito de confortar as mazelas e estancar os pruridos do desencanto
Frutos de cactos afrodisíacos eram colhidos por camponeses cegos
O mundo rezava para uma estátua erótica que se embalava sobre um alabastro empoeirado
Poucos sabem dos lamentos galináceos de um futuro aveludado

Balançando entre dentes

Corrompido pelas enzimas gástricas
O destino da beleza momentânea é selado por um fim fisiológico alegórico
Amando as sombras de uma vagabunda sorte
O último vadio
O último dândi
O último herói caído
Reclama seu trono em decadente minimalidade




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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O perdão e o rancor



As putas só mudam a cor do cabelo
São todas portadoras de orifícios lindos
Esperando para serem penetrados
Mijando e se melando
Fábricas inteiras de azedumes cósmicos
Por vezes a ilusão do conforto fecha nossos olhos
E cria pequenos delírios
Delírios não menos doentes do que tomar ácido no mercado
Nas florestas tailandesas moram os filhos do desapego
Enfurnados em trilhas de desatino e umidade
Perdoar é para os fracos
Perdoar é um dom raro para aqueles que nasceram tortos


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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sensações



Sentir é melhor que escrever
Sensações e palavras?
Quaisquer palavras desde que hajam sensações
Desde que minta para mim
Para você
Estou sendo verdadeiro agora
Liberdade para os primatas
Línguas e chuvas de outono
Eu daria um beijo nas nádegas do outono se ele tivesse bunda
Não são as folhas
Não são as frutas
Não são os ventos
São as sensações
Elas movem o mundo
Elas dizem o que querem
Mesmo quando estão caladas como uma vítima de estupro em choque
Ligue a esteira e deixa que venham
Que venham as novas diretrizes do outro lado do enigma
Indecifrável quando pode
Incalculável como deve
São ausências e alegrias
Sussurros e mãos se comprimindo
No fim todos sentem fome
E jantam juntos
Vamos comer restos de pizza no inferno
Pois entre harpas ou grunhidos
Pouco importa quem fode com você a noite
São os mesmos gemidos
São as mesmas horas escorrendo pelas paredes
São as mesmas sensações



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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Crianças





Elas vieram
E quando li elas
Pareciam nem ter sido minhas palavras
Meu peito ardia por uma interminante sucessão de tosses catarrosas
A tarde transpirava tédio quente
Ao longe crianças gozavam de sua inconsciência
Guinchos de alegria coletiva



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