terça-feira, 28 de setembro de 2010

Rugas

Ela já era velha;
mas as tradições natalinas
também são e todo mundo
come panetone ou na pior das
hipóteses aqueles biscoitinhos insossos.
Talvez fosse doentio;
mas eu sentia uma incrível atração
por lamber-lhe as rugas,
apalpar suas estrias
e me apoiar em seus
seios flácidos.
Eu a amava;
apenas por uma noite,
eu amava.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eu girafa

Ser uma girafa
deve ser interessante.
Elas fornicam o ano todo.
E na estação das chuvas,
fodem ainda mais.
Frutos que fermentam!
Que embriagam!
Que desmancham!
Elas nem percebem
que seus pescoços são
asquerosamente grandes;
que suas línguas são roxas
que o chão que dormem
seja o cemitério ancestral
de seu passado.
Ser uma girafa
deve ser interessante.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Memórias de um andróide ( parte I)

Essa cidade é suja,
fede a ilusão,
e nem falo dos dejetos
imundos acumulados
nas vielas ou do
lixo humano,
que só faz aumentar
a cada ciclo diário
nesse teatro decadente
que saudamos homonimamente
como sociedade.

14 de agosto, 2083

Calinda

Calinda amava
esfregar cebolas nos olhos
enquanto montava
no membro rijo de Horácio.
Ele fingia gostar,
mas não suportava
aquele rito sádico.

E como dizer não
a dona de tão belas
nádegas?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ela (parte XV)

Era provável que medisse
mais de um metro e oitenta.
O contraste de seus óculos escuros
com seu rosto fluorescente
era quase ofensivo;
não menos estranhos eram
os movimentos incomuns
que suas mãos mefistotélicas
descreviam ao som da chuva.

Arranquei mais uma mordida
de meu pastel gorduroso de frango
e emborquei o último gole
da cerveja choca.

Quando me dirigi para a porta
ela baixou os óculos e me
encarou com um certo ar insolente.
Seus olhos eram de um azul cinzento,
Tão cinzento quanto as plumas dos
pombos que nos observavam do
telhado vizinho.

Noite

Gotas mágicas
que atenuam a dor.
Lembranças alegóricas
que masturbam a ansiedade.
O claro e o escuro,
a sujeira e a berinjela,
as costelas se partiram.
O bocejo da lua parece interminável;
nada mais idiota
que o diálogo de um mosquito
com uma orelha surda.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Narrativa póstuma de um homen atacado por um telefone serpente

Debateu-se por toda a parede
de meu esôfago debilitado.
E mesmo que eu não fizesse
a menor idéia de qual seria
a origem do singular sintoma.
Peguei o telefone em mãos;
mas no exato momento que eu ia
discá-lo ele transmutou-se
em uma aterradora serpente.
Num bote rápido e preciso
Suas presas encontraram
minha jugular macia,
e antes mesmo que o
discernimento de qualquer
verossimilhança análoga
me tocasse o crânio,
Minha vida já havia se
esvaído por completo.